Nem tristeza, nem indignação e nem indiferença. Eleições e o jogo da vida

urna

Por Wagner Hosokawa

A vitória de ontem do PSDB em São Paulo e o segundo turno entre dois representantes do golpismo antipetista em Guarulhos (SP) representam o acumulo de forças do pensamento liberal-conservador que não admite ser derrotado dentro da sua regra do jogo. Dilma foi vítima disso.

E reafirmo: nós que queremos tanto outra sociedade com justiça social, sem desigualdades políticas, econômicas, sociais e culturais, socialistas ou não, progressistas ou democráticos de toda espécie queremos tudo isso e escolhemos em que jogo jogar.

Jogamos dentro das regras e do consentimento do pacto conservador de 1988. A derrota de Lula em 1989 empurra o PT para no “new deal” da esquerda “democrática” e com aliancismo para vencer e conciliação para governar. Deu certo até aqui.

O governo do PT no plano federal conduziu mesma política econômica herdada do PSDB, o setor financeiro lucrou como nunca, mas tinha um problema de rota que as elites não engoliram: a valorização do salário mínimo partilhou parte do ganho com parte da classe trabalhadora, e isso nunca está no roteiro das elites.

O ganho no salário mínimo real traz, a uma parte da classe trabalhadora, acesso aos bens materiais, como culturais e aí está o perigo. Os sindicatos entre 2006 e 2008 nunca realizaram tantas greves e obtiveram tantos ganhos reais para suas categorias, o acesso ao crédito e ocupação de lugares antes exclusivos dos endinheirados gerou uma sensação de integração social nunca vista. A questão para as elites está na sua exclusividade e na servidão dos que cercam seus privilégios enquanto classe; só a ideia de dividir causa horror.

Poderíamos dizer que o governo “new deal” fraco do petismo “atirou no que viu e acertou no que não viu”, e não realizando reformas de base como a agrária, educacional e outras alimentou o “mostro” que iria emergir no dia 20 de junho de 2013, ocupar a avenida Paulista em 2014-2015 e levar ao impeachment em 2016. Tudo isso capitulado por parte das forças político-econômicas de oposição ao petismo, que, de quebra, fez embarcar toda esquerda brasileira numa linha bem pré 1964.

Quando o principal partido político que se considera dentro do campo da esquerda “democrática” toma um golpe destes e não faz nem uma análise profunda, ou muda sua tática para sobreviver numa eleição como essa em que estavam em jogo as cidades, o resultado pode não ser previsto, mas esperado.

As elites ganharam e a democracia perdeu. A julgar pelo alto grau de abstencionismo entre votos nulos, brancos e de ausentes. Só nas principais capitais: São Paulo – 38% e Rio de Janeiro – 42% e, em Guarulhos – 36%, que é a segunda maior cidade do estado de SP; ou seja, o voto facultativo no atual sistema eleitoral é quase uma regra indireta e aceita pelo TSE.

E os motivos da derrota? A única resposta reside na única coisa que deveria ter sido valorizada e não foi durante os anos da bonança do governo do PT: a política. A política que deveria ser o objeto e lugar da disputa tratada como relação naturalizada do cotidiano, como se a disputa fosse pelo caráter cosmético do governismo, onde buracos na rua mereceram mais atenção do que os buracos das relações que estabelecem a participação política aos direitos de seus cidadãos e cidadãs.

Culpar os pobres não pode ser a questão da derrota. A eles não foi oferecida saída que não fosse a luta diária pela sobrevivência. São os votos do atacado liberados para todo tipo de oportunismo de todos os lados. Seu voto para as esquerdas (sejam quais forem, e nisso incluo o PT), só é real se há uma ligação enraizada no seu cotidiano expresso em organizações, luta e solidariedade, onde nas esquerdas há poucos fazendo esse bom e velho trabalho de base.

Exorcizar a classe assalariada média também não é de bom tom. Quem abandonou a perspectiva de aliarçar as relações na construção da identidade da classe em si para uma que se reconheça para si e assim exortar os ideais liberais de consumo e elitismo deveria ser do PT na ponta; não fez, escolheu o caminho fácil do eleitoralismo.

Ao jogar no jogo das elites confundiu-se ao ponto de ser considerado a “incorporação do mal e de toda corrupção”, assimilada assim, o 13 foi demonizado, ao ponto do analfabetismo oportunista da direção do PT ao fechar os olhos para os inúmeros candidatos que fizeram alianças com partidos golpistas ou que esconderam as estrelas e o vermelho, agora pense em pedir ao TSE a mudança do próprio número. Isso confirmaria a morte do maior instrumento político da classe trabalhadora pós ditadura civil-militar.

E o que restou? Voltar as bases, sim, mas tendo claro sobre qual programa político e estratégia de longo prazo, articular enquanto classe não para comer na mesa do banquete das elites e sim conjugar solidariedade humana e socialismo como a mesa do refeitório da igualdade na partilha das riquezas.

A vida não acabou. Para quem compreendeu esse momento e desde o início dessa crise tem buscado restabelecer suas raízes de classe, sua autonomia relativa e pessoal dos cargos do Estado e manteve-se firme nas relações sociais da classe trabalhadora tem um caminho longo que combina formação, ação e resistência.

Quem esperar chegar às eleições de 2020 para ter do “povo” o arrependimento como meio de voltar o PT ao governo vai errar feio e como o “cachorro que corre atrás do próprio rabo” não vai conseguir respostas nessa conjuntura.

Pior morto é aquele que respira, está fisicamente, mas como um fantasma não caminha o caminhar, arrasta-se historicamente para o nada.

Aos que lutam, a vida pulsa. Derrotar o pensamento e a moral conservadora é a tarefa mais necessária do momento e isso se faz no cotidiano das pessoas reais.

Wagner Hosokawa é assistente social, professor, mestre em serviço social e doutorando em ciências humanas e sociais pela Ufabc.

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